O coração emprestado
— Desculpe, mas não o conheço. Como é que conseguiu a minha morada? — perguntou Luzia. Ricardo ficou parado no patamar. Olhava para ela com uma intensidade que a fez recuar meio passo. — Olhe, se é de alguma associação … Ler mais
Dá-me notícias de mim
Se numa noite de outono um viajante viesse trazer-me notícias dela, eu não o maçaria, caro leitor. A minha alma estaria cheia e eu não precisaria de si. Mas preciso. Da sua presença silenciosa a provar que ainda há espaço … Ler mais
O armário, a miúda e o acaso
Eu era miúda e virei armário. Não é metáfora, não nesse dia. Foi literal: o corpo pequeno encurralado entre o tanque da roupa e a pia de despejos, e uma avalanche de copos, garrafas, vasos, tudo misturado com o estrondo … Ler mais
A língua do corpo
Clara sempre soubera escutar com as mãos. Não era metáfora, era vocação. No seu consultório, investigava corpos que se haviam calado há demasiado tempo. Como fisioterapeuta especializada em disfunções pélvicas, mapeava territórios íntimos através de técnicas aprendidas em congressos discretos, … Ler mais
O Cavalo de Sal e a Flor Azul
Mariana acordou antes de Sol nascer. O vento sacudia as persianas do quarto e o rugir das ondas chegava-lhe como um bater de tambores antigos. Levantou-se devagar, sentindo o soalho frio nos pés. Espreitou pela janela e viu o oceano … Ler mais
Nómen
É o ano 2161. Sobre as ruínas do velho mundo ergue-se Nómen, uma cidade governada por uma inteligência artificial chamada Orácula. Nome inspirado nos antigos oráculos, não prevê o futuro — molda-o. Criada após a chamada «Última Insurreição» (uma guerra … Ler mais
Tulipas Plantadas na Almofada
Levou as mãos enfarinhadas à massa fresca que se preparava para estender. Ao longo de trinta anos de casamento, nunca lhe falhara o tempero — não que o marido algum dia fosse notar a diferença, tivesse mais ou menos noz-moscada. … Ler mais
Herança de papel e tinta
A chuva miudinha tamborilava contra a janela do pequeno estúdio. O vento sussurrava entre as frestas da porta, emitindo um leve gemido fantasmagórico. O ar tinha um cheiro familiar, uma mistura de papel envelhecido, tinta seca e um leve resquício … Ler mais
Eu, Nellie Bly
Entrei. Sinto as olheiras e os olhos afundados no rosto. Tento manter o olhar distante, como se de loucura se tratasse. Tenho um receio enorme de ser descoberta no teatro que represento. Tudo é branco à minha volta. Paredes, mesas, … Ler mais










