O cheiro dos Livros

Livros em papel ou livros digitais? Eis a minha questão para si, hoje.

Compará-los é como confrontar o calor do sol com a sua sombra. Esta é a afirmação peremptória de quem «padece» de bibliosmia (não se preocupe: é incurável, mas consigo viver bem com isso).

Importa, contudo, não perder a objetividade e conseguir evidenciar as vantagens e desvantagens de cada um dos formatos.

Quais são então as vantagens dos livros digitais?

Começamos pelo fator preço. Os digitais são mais baratos do que os livros físicos. Considerando que ficamos apenas com uma espécie de holograma, o valor dos e-books em Portugal é relativamente elevado.

Outra vantagem é de facto, a facilidade de transporte. Transportar as seiscentas páginas de «Moby-Dick» durante as férias do verão foi exigente, mas não deixei de o fazer. O Kindle teria facilitado o processo.

Podemos ler mais do que um livro em simultâneo, e ter a casa mais arrumada sem livros espalhados pelas várias divisões.

Os digitais duram mais e são uma excelente opção para as bibliotecas públicas. Pobre da minha coleção da Anita que não sobreviveu aos bolores dos invernos dos anos.

Os livros digitais possibilitam-nos aceder ao dicionário e descobrir de imediato o significado de palavras desconhecidas. Permitem-nos personalizar as fontes e o tamanho das letras, o que dá, sem dúvida, um jeito tremendo, à medida que a idade nos vai obrigando a aumentar as dioptrias. Existem certos programas que possibilitam a sua leitura em voz alta, o que os torna ainda mais inclusivos.

Os livros digitais podem até ser considerados mais «amigos do ambiente» comparativamente com os físicos por causa do consumo de papel e outros recursos. Mas os e-readers também consomem água e energia elétrica, além da questão da reciclagem do equipamento após o seu tempo útil de vida.

Se desejar entrar no mundo da leitura dos livros digitais tem à sua disposição os e-books da Rakuten Kobo, disponíveis também na FNAC e que podem ser lidos nos e-readers Kobo. Depois, temos a gigante AMAZON, a maior livraria do mundo com acesso através do Kindle.

Em relação às desvantagens, a leitura de e-books é mais impessoal, menos envolvente. No meu caso, adoro sublinhar os livros, por isso, estabelece-se à partida, um fosso de emoção. A leitura de e-books é também incompatível com alguns lugares, como a praia e o seu manuseamento exige um certo cuidado.

Quais são as vantagens dos livros físicos?

A nossa ligação emocional com os livros é inegável. Fazem parte da História da humanidade. Acompanham-nos e anotam a evolução daquilo que fomos, somos, pensamos, desejamos, sonhamos, amamos, odiamos.

As discussões sobre qual foi o primeiro livro são imensas. Há registos que remontam a 3200 a.c. O primeiro livro impresso, técnica desenvolvida por Johannes Gutenberg foi a Bíblia, em 1455, um dos grandes bestsellers mundiais de todos de todas as épocas. Falamos, pois, de uma ligação com muitos e muitos anos de vida.

Os livros são objetos colecionáveis que podem ser transmitidos de geração em geração (se forem bem conservados, claro).

A sua leitura torna-se menos cansativa comparativamente com a que fazemos num ecrã de um e-reader. Conseguimos prolongar o tempo de leitura muito mais com um livro físico do que com um livro digital.

Os livros ajudam-nos a manter a concentração, a focar melhor os detalhes e a desligar do mundo eletrónico, o que tanto precisamos nos tempos em que vivemos.

A grande desvantagem dos livros físicos será mesmo o seu transporte principalmente quando falamos de obras volumosas. Mas, para quem já transportou «Moby-Dick» até à Irlanda e anda agora numa relação de proximidade com «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas», de Afonso Cruz, nem isso serve de obstáculo.

A melhor opção? Aproveitar o melhor dos dois mundos. No meu caso, tenho um Kindle e compro em formato e-book aqueles livros que pretendo ler e que não me importo (por razões várias), de não o possuir em papel.

Já agora: se gosta de abrir um livro e sentir o seu cheiro, folhear as primeiras páginas, viajar no seu aroma mesmo antes de se perder na história, não se preocupe, está tudo bem consigo e somos, felizmente, muitos. Tal como eu, «sofre» de bibliosmia.

Se apreciar o cheiro de um livro funcionar também como um estímulo à leitura (que acredito, que sim), eis um hábito que deveria ser contagioso.

 

 

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Texto publicado na revista Pontos de Vista

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Analita Alves dos Santos

Analita Alves dos Santos

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