O doce amargo do Natal

Há os vazios eternos, presenças insubstituíveis, afastamentos forçados que o tempo nunca resolverá

Todos os anos, a partir de dezembro, o relógio bate devagar, os corações abrandam, tornam-se mais meigos. Será?

Há um convite a olhar para dentro, um chamamento à reflexão. Palavras como «amor», «esperança», «luz», «felicidade» circulam de mensagem em mensagem. Nas redes sociais, nos e-mails, quase todos se transformam em potenciais criadores de conteúdos para os postais da Hallmark, em busca da frase perfeita que toque o coração de quem a lê. Muitas dessas palavras, genuinamente sentidas, mereciam mesmo esse destaque.

Há casas repletas de afetos, em mesas fartas de bacalhau com couves, rabanadas, filhós, coscorões que enchem os olhos e as barrigas. Aromas que invocam a infância, crianças que esperam as doze badaladas para a correria aos presentes que em muitos casos, não têm mais espaço nas gavetas.

Nem todos conseguem (ou desejam) fazer uma introspeção.

Há quem se sinta só (rodeado de pessoas), que despreze a própria companhia, que lute com demónios internos, mesmo que disfarce essa batalha num sorriso. Ansiedade, depressão, transtornos obsessivo-compulsivos ou outras questões mentais impedem muitos corações de abrandar e apreciar verdadeiramente o «espírito natalício».

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, quase um bilião de pessoas viviam com transtorno mental em 2019, sendo 14% adolescentes. Segundo o mesmo estudo, a depressão e a ansiedade aumentaram mais de 25% apenas no primeiro ano da pandemia. Números assustadores. Importa olhar para quem está ao nosso redor sem a frivolidade de um «Então, está tudo bem?» sem ambicionar a resposta. Conseguir estar presente, em verdade, na empatia de um abraço.

A campanha de Natal deste ano da Vodafone aborda a temática da saúde mental. O anúncio «Partilha o que estás a sentir» é um bom exemplo do que as marcas podem fazer para despertar a sociedade. Sabemos que a publicidade é o mote, mas mesmo assim, é relevante.

Há quem não tenha com quem (ou onde) estar.

Recordo os sem-abrigo. Nove mil pessoas (dados de outubro de 2022) em Portugal têm as estrelas como papel de parede, a lua como candeeiro e o frio como cobertor. Alguns recorrem a abrigos temporários, mas muitos não têm teto. Virar a cara, procurar esquecer? Estas pessoas existem, e para elas, o Natal (ou a entrada no novo ano) é apenas mais um dia para sobreviver.

Há quem não esteja com quem gostaria.

Para muitos, esta época do ano é um relembrar forçado de quezílias familiares, desentendimentos do passado que o bom senso não resolve. Fossos de opiniões contrárias, formas distintas de observar o mundo, despovoam o lar. A mesa de Natal é mais pequena, mas ainda assim, acolhedora para os que se sentam lado a lado.

Há também vidas desencontradas, impedidas da liberdade de amar. Empregos que obrigam à ausência junto da família pela necessidade da dádiva ao outro. Almas em desespero, que aguardam a cura numa cama de hospital.

Depois, há os vazios eternos, presenças insubstituíveis, afastamentos forçados que o tempo nunca resolverá. Amigos cuja voz deixamos de escutar, familiares cujos braços não mais nos aconchegarão.

Por tudo isto (e muito mais), o Natal é também um dia de tristeza, época de um doce amargo, onde a energia da gratidão — pelo que temos, somos e sentimos — deverá prevalecer em gestos sentidos, palavras genuínas ou no silêncio das memórias.

Desejo-lhe um Feliz Natal e um amanhã doce, cintilante.

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Texto original publicado no jornal Sul Informação 

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Analita Alves dos Santos

Analita Alves dos Santos

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