historias à solta - textos do mês
Histórias à Solta

Travessura

Abominava a idiota tradição importada dos americanos. Por ele, receberia qualquer criança
que lhe batesse à porta apontando-lhe os canos da caçadeira. À esposa, no entanto, brilhavam
os olhos sempre que ouvia a irritante frase.

«Doçura ou travessura.»

Os pequenos fantasmas, vampiros e lobisomens serviam-se das guloseimas que ela acumulara
em tal quantidade que daria para tornar diabéticos todos os habitantes da aldeia.

Quando, após mais um toque da campainha, ele a ouviu gritar, julgou ser apenas mais uma
tentativa de animar os monstros imberbes. Mas ela não parava. Gritava, berrava, uivava.
Histérica como uma hiena. Ele correu a acudi-la, contrariado.

À porta, de mão estendida, estava uma zombie. Cabelos desgrenhados, olhos vermelhos,
carnes podres. Ele ficou impressionado com a caracterização, até a reconhecer.

— Luísa. — Murmurou.

E a esposa gritava e chorava e repetia, Luísa, Luísa, Luísa, minha Luísa.

“Como te desenterraste? Como voltaste a pôr a cabeça no lugar? Como percorreste todos
estes quilómetros? Como estás aí, após tantos anos?” Perguntava o homem para si próprio,
mas apenas lhe saía um som.

— Luísa.

A criança arreganhou os lábios e falou:

— Olá… Pai.

Não tinha língua.

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves

Texto Vencedor
Histórias à Solta

O último sonho

Eram precisamente 2 horas e 30 minutos, numa madrugada quente de verão, quando Sofia se preparava para atravessar a rua que a levaria a casa.  Na montra de uma relojoaria, um Rolex chamara a sua atenção. Fixou-o por momentos, antes de dar mais uns passos em direção à passadeira de peões. O silêncio da hora contrastava com a luminosidade quase cortante de algumas montras e com a sombra pouco convidativa projetada pelos candeeiros de rua.

O seu coração, oceano de um amor que sentia cada vez maior, sonhou: “O João iria adorar aquele relógio. Foi um sinal. O Rui não vai saber. Detesta-o, está sempre a dizer que sou louca, que o conheci há pouco tempo, que deixei o pai por causa dele e já não vejo outra coisa. Lá isso é verdade. Este meu João é especial. Sinto-me renascida. Quando fomos hoje ao banco pôr a conta em nome dele, percebi que me entreguei por inteiro. E fez questão de estar comigo até partir de viagem. Que mais provas quero? Amo-o como nunca amei ninguém.  Quando ele voltar, vou fazer–lhe uma surpresa”.

Envolvida nestes pensamentos, Sofia preparou-se para atravessar. Nesse momento, uma carrinha com vidros escuros fez uma travagem brusca à sua frente. Dela saíram quatro homens com a cara coberta. Empurraram-na violentamente para a parte traseira do veículo. Tentou gritar “João, João”, na esperança de que o seu amor a salvasse, longe de pensar que, afinal, ele estava bem perto, mas prestes a pôr-lhe fim à vida.

Teresa Dangerfield

Teresa Dangerfield

Texto Vencedor
6 meninas

SEIS MENINAS

Elas eram seis meninas

sentadinhas numa concha

ali mesmo junto ao mar.

Tinham cabelos de bruma

anéis de estrelas nos dedos

e sonhos de navegar.

Guardavam a sua pérola

não fosse alguém a roubar.

 

Brincavam de faz de conta

sem se aperceber

que o que elas brincavam

era a vida a acontecer.

E enquanto acontecia,

nenhuma delas esquecia

de guardar aquela pérola,

não fosse alguém a roubar.

 

Vieram anos, distâncias,

saudades, partidas,

caminhos quebrados,

perdas e retornos

mas na conchinha da praia,

redonda e nacarada de luar,

estava a pérola guardada,

ninguém a podia roubar.

 

E lá estão as seis meninas,

na conchinha junto ao mar.

Têm cabelos de prata

dedais de búzios nos dedos

e ternura no olhar.

Bordam memórias na espuma

ouvem segredos do mar

e aquela pérola guardada,

tão mimosa, tão cuidada,

ninguém a poderá roubar.

 

Carmo Marques

Setembro 2022

Às minhas amigas de sempre e à pérola que é a nossa amizade

Carmo Marques
Carmo Marques
Texto Vencedor
O tronco da vida

O tronco da vida

O tronco da velha árvore já não vive. Os ramos perderam as folhas. Os pássaros tímidos não podem mais esconder as suas coreografias amorosas. Os ovos azuis pintalgados de negro não têm onde eclodir para novas vidas, sôfregas e frágeis, de bicos escancarados por alimento. Uma rajada de vento forte pô-la à prova. Desistiu de fazer-lhe frente e jaz agora junto ao espelho quieto e cinzento do lago.

O melro preto voa e salta descontraído. Olha espantado para os vultos humanos e estranhos que lhe invadiram de repente o relvado aparado de fresco. Parecem perdidos. Preenchem papéis brancos com canetas que riscam de dourado. Sente fome. Com as suas garras, arranca uma casca ressequida do tronco abandonado. Surge uma colónia de larvas e formigas pretas grandes e gordas que correm em rumos escangalhados, a oportunidade única da refeição merecida. Aproveita-a com sofreguidão. As forças regressam e já pode cumprir o desígnio de cantar até que o sol se esconda por trás dos plátanos ao fundo da herdade. A missão que lhe fora destinada pode, finalmente, ser cumprida.


José Mendes
José Mendes
Texto Vencedor
Adoro a morte

Adoro a morte

Adoro a morte. É tão…fácil. E nós, humanos assustados, que tanto a tememos… chega a ser ridícula a facilidade com que corremos em direção a ela. Patéticos. Discordas? Bem, hoje o sono está a tardar e não tenho nada melhor para fazer. Será mais simples mostrar-te. Acompanha-me, e vais perceber o meu ponto de vista.

Descemos à rua. O Chiado, a esta hora, está deserto, mas a diversão não é por cá de qualquer forma. Deixa-me só fechar o casaco, e é melhor fazeres o mesmo que é sempre fresco de madrugada. Subimos até à Praça Luís de Camões e aqui conseguimos perceber a vibração da noite. Senta-te comigo, aos pés da estátua. Nah, os que por aqui estão são dispensáveis. É um espaço demasiado amplo, de qualquer forma. Ficamos muito expostos. Ouve, fecha os olhos e percebe de onde vem o som. Sim? Identificas? É para lá que vamos, onde a decadência dura. Por esta altura, nenhum dos resistente estará sóbrio. Espera, antes de entrarmos no bairro cobre-te com o capuz. Isso, bem puxado sobre a cara, exatamente. Nas sombras a nossa face é um vazio, que imagem linda…

Caminhar devagar, sempre. O ritmo da passada, quando é decidido e lento, dá-nos poder, o poder do controle sobre o rumo que a caçada terá. Não, nada de pressas. Olha o grupo, daqui de longe, estuda-os. Bastam alguns minutos para identificares o mais fraco, o que facilmente se desgarra do rebanho. Repara… aquele. Vês o magrito encostado à parede? Sim, o que está a vomitar, esse mesmo. Nada inteligente. Daquela esquina conseguimos que deixe de ver os colegas sem que se mova, basta aparecer pela rua de baixo. Silenciosos, não deixemos que nos veja (para isso, o lixo empilhado por estas ruas é extremamente útil) e, quando voltar a erguer a cabeça, estamos a dois passos. Bam! Num segundo está a vomitar, no seguinte tem um vulto encapuzado à distância de um braço. O ar de pânico! Delicioso. Repara, vai voltar as costas e correr em frente, é um clássico. Raramente estão suficientemente lúcidos para encontrarem o caminho de volta ao bar, que por esta hora é o único aberto. Deixamo-lo correr e observamos. Espera… uma caçada vive da paciência. Vejamos como se comporta… lá está, virou. Curiosamente, voltam quase sempre à direita. Percebeste em que rua virou? Isso, agora é altura de correr. Sempre por uma paralela, ganhando velocidade, conseguimos surgir-lhe à frente com um quarteirão de avanço. Ah! O olhar dele. Pânico! Excelente trabalho. Conseguimos, o gajo já está borrado de medo. Agora é só continuar atrás dele. Seguros e constantes, postura ereta. Olha pra ele, já mal consegue correr a direito. Medo e álcool são uma infusão poderosa. Tão fácil…

Resta encaminhar este cadáver ambulante para o seu destino. Repara, consegues guiá-lo usando a tua posição na rua: se caminhares ao centro, ele irá em frente, se estiveres próximo da margem direita, ele vira à esquerda, e vice-versa. Simples, vês? Para onde? Ah, para onde… hoje tenho em mente uma coisa especial, digna do Louvre. Príncipe Real, guiamos o gajo para lá. Sim, para os jardins, o São Pedro de Alcântara. É isso mesmo, estás a imaginar o plano?

Os jardins são nossos amigos. Deve ser a proximidade da natureza que lhes dá qualquer coisa de primitivo e selvagem durante as horas mais escuras. Como treme, o moço. Continua a caminhar certinho, basta isso. Casaco fechado, capuz bem puxado, mãos nos bolsos e passada segura. Implacável. O gajo treme e agarra-se ao gradeamento como a uma tábua de salvação. Perfeito. É só continuarmos a caminhar. Lentos, felinos. Já sobe a grade, vês? Isso mesmo, nós não paramos.

Pelo barulho, não caiu em cima de um carro. Vá, não queiras perder a melhor parte! Baixamos o capuz, que não queremos assustar ninguém, e descemos a rua que contorna o jardim com calma. Pelo caminho, avisamos o 112: «Estou? Olhe, não sei o que se passa, mas gritaram! Não é habitual, não durante a semana. Acho que alguém se magoou, venham, por favor! Onde? No Jardim de São Pedro de Alcântara, moro mesmo em frente. O meu nome? Estou? Não ouço. Sim?». Feito. Bem, se tivéssemos deixado um alvo, o gajo não teria conseguido ser mais certeiro. Olha que maravilha! Conseguiu ficar empalado no gradeamento. Belo salto. E agora? Agora escolhemos de onde queremos ver o espetáculo.

O som das sirenes acalma-me. Laivos de azul e amarelo iluminam o corpo que se dobra, num ângulo impossível, sobre a grade. O brilho das lanternas acentua o encarnado do sangue que desenhou uma poça disforme no passeio e escorre pelo muro. Um quadro. Belíssimo.

A morte. A derradeira obra de arte.

Diana Almeida
Diana Almeida
Texto Vencedor
Histórias à Solta

A menina do farol

Tem nas pernas alfinetes

É de linha o caracol

Preenchida de farrapos

Roupa feita de lençol

Sabe que é feita de trapos

A menina do Farol.

Diana Almeida
Diana Almeida
Texto Vencedor
casa de partida

Casa de Partida

«Falta-te o fôlego quando te assomas. No reflexo gelado da vitrina dos iogurtes, vislumbras a imagem, desfocada, daquela que outrora amaste.

Caminhas descompassado enquanto a bela morena enfia a cabeça no balcão do talho adivinhando a tua respiração ofegante. Continuas assombrado. Quem disse que algum dia ousarias voltar ao passado?

Tu não és o tipo de homem que frequenta o supermercado a estas horas da manhã. O teu cérebro navega desgovernado, tenta entender o que faz ela a trezentos quilómetros da casa de partida. Ela topa-te. Continua, impávida, a encher o pequeno cesto de rede azul. Será que te reconheceu?

Apressas-te a partir. Falta-te a coragem, como há seis meses, de reconhecer o teu fracasso. Em desalinho, nem dás conta da pilha de latas que derrubas à passagem, vislumbrando a linha de caixas.

O alívio consome-te quando a porta se abre. Terá sido uma miragem? Talvez o medo te esteja a toldar os sentidos e Sónia povoe tudo o que por ti graceja.

O 𝐶ℎ𝑎𝑛𝑒𝑙 𝑅𝑜𝑢𝑔𝑒 nunca engana e o para-brisas do teu carro é a prova viva do que, em letras berrantes, te traz a intempérie: «Algures no passado podias ter minorado a perda, mas talvez a perda não tenha sido assim tão grande… a minha.»

Ana F. Pinheiro
Ana F. Pinheiro
Texto Vencedor
a mesma luz

A mesma luz

A luz era forte. Ofuscante. Chamava-me. Segui-a. Conforme avançava, mais intensa era. Senti-me banhada por ela, protegida. Passava por um corredor estreito, ladeado de cristais brancos, verdes, azuis e rosa. A vibração era indescritível: tanta paz. Cheguei a uma porta. Abri-a. A luz quedou-se, como se não quisesse continuar. Seria um aviso? Sem pensar, peguei num cristal que vi no chão. Acendeu-se-me na mão, qual lanterna. Continuei a caminhar. Notei que o cristal projetava nas paredes, que lembravam o mar, e no teto, que parecia o céu, formas semelhantes a setas, algumas em direções opostas. Cada vez que dava um só passo, apareciam mais caminhos. Pousei o cristal no chão. Começou a girar, até apontar para onde o encontrara. Estaria a dizer-me para voltar para trás? Não quis ceder, cheia de valentia. Segui em frente. Sem o cristal, a luz diminuía a olhos vistos. Dei comigo na escuridão a tatear as paredes, que me faziam escorregar as mãos como se as envolvessem em ondas. Cheguei junto ao que sentia ser uma porta. Abri-a, sem esforço. Estaria a sonhar? Voltara ao lugar de partida. A mesma luz. Afinal, deveria ter escolhido outro caminho? Talvez não fosse mesmo possível, quem sabe…

Teresa Dangerfield
Teresa Dangerfield
Texto Vencedor
A chávena rolou pela mesa de Margarida Correia

A chávena rolou pela mesa

A chávena rolou pela mesa. Os bagos de arroz a pousar no chão lembram-me os dias em que a neve crepitava nas mãos sujas da terra.

Aguardo o leite para preparar a sobremesa para a consoada. O segredo é a casca de laranja, dizia a bisavó, curvada no preto. Eu, hipnotizada na dança da colher no tacho, ia comendo Esquecidos e fundia-me nos cheiros fervilhantes.

Pela janela miro o solar. O peso das estórias desta aldeia, engolidas na rugosidade da pedra, acompanha-me o volume do corpo. Sem reparar, trinco o pau de canela e sinto o polvilho dos beijos atrás da fonte ou na fogueira alta, no povo, que nos aquecia mais os sonhos do que os ossos. A cacimba pasma-se nos olhos. O que é feito de ti? Estamos no final de 1980, vinte anos passaram, e nunca voltaste de França. Sem coragem para fugir contigo, fiquei a atender telefones. Pelo menos, não me cruzava com pessoas…

Desperto com o riso dos miúdos a entrarem em casa. As paredes enchem-se de doçura e o cabelo esquece o branco que teima em aparecer. Trazem a bilha com o leite acabado de mungir e o correio. Um envelope timbrado: Escola de Hotelaria de Lisboa. Vou dar asas aos ensinamentos ancestrais. Depois, hei de soltar faúlhas geladas. Nos Alpes.

Margarida Correia
Margarida Correia
Texto Vencedor
abraço

Um (a)braço [Nuno Gonçalves]

Tudo passa.

A vida continua.

Não quer dizer que fiquemos como dantes. Diria que é como perder um braço. Como se nos cortassem um braço. Não, cortassem não. Cortar é muito limpo, muito cirúrgico. Como se nos arrancassem um braço. Porque é mesmo assim, não é? Arrancado à bruta, com tendões rasgados, nervos estirados, músculos estraçalhados.

Não achas uma boa metáfora? Bem, foi o melhor que arranjei e olha que penso nisto há muito tempo.

Percebo-te. Um braço, afinal… Para que serve um braço? Tenho outro. Um braço não goza com este meu jeito desengonçado e hesitante. Não poderia jogar futebol contra um braço, como fazíamos, chovesse ou fizesse sol, com a bola meio cheia e meio rota. Um braço não solta aquelas tuas gargalhadas, que te transbordavam pelo nariz. Um braço não é um irmão.

Por outro lado, repara, se me arrancassem um braço, também ficaria incrédulo a ver algo que era parte de mim desaparecer abruptamente. Também sentiria uma dor excruciante. Mais ligeira, com certeza. E também deixaria uma cicatriz, funda, disforme, que esconderia por baixo da roupa e tentaria não olhar para ela a toda a hora, evitando acordar dores antigas.

Sim, tens razão, continua a ser diferente.

Porque se o agente me ligasse e dissesse “Estou a falar com o Senhor Nuno? É para lhe dizer que lhe arrancamos um braço.”, dir-lhe-ia “Como assim?” e tentaria argumentar e convencê-lo que seria boa ideia voltar a colocá-lo no sítio, que provavelmente exageraram e era desnecessário terem-me sujeitado a isso. Conseguiria, apesar do absurdo da situação, falar com ele usando palavras, palavras mesmo, e não grunhos, gritos e soluços.

Porque se eu tivesse de ligar à mãe a dizer-lhe “Olha, mãe, arrancaram-me um braço.”, não me custaria nada. Nadinha. Ela não ia gostar, claro, porque me criou com dois braços perfeitamente funcionais e ninguém gosta de ver um filho perder um pedaço, mas lá se resignaria e talvez me dissesse para me agasalhar ou assim. Agora, dizer-lhe que tu…

Porra, que me arranquem o braço. Para que serve um braço? Faria tudo igual só com o outro, a sério. Escrever? Fácil. Cozinhar? De certeza que conseguia. Tocar guitarra? Bom… Talvez fosse difícil, mas deve haver vídeos a explicar. Operar? Eh… Deixa lá isso.

Ah, dizes que também levo a mesma vida sem ti? Não, pá. Levo UMA vida sem ti. Não é a mesma vida. Porque nesta vida, não estiveste no meu casamento nem conheceste os teus sobrinhos. É outra vida. Com muitas alegrias, claro. Mas outra vida. Sem ti.

Olha outra que me lembrei. Será que se me arrancassem o braço, também teria de ouvir “Isso acontece a todos”? Talvez. Mas aí eu responderia, irritado: “A todos? Acontece a todos? Então não vos vejo aí todos com dois braços?! Escusam de os esconder nos casacos, ou atrás das costas. Acontece a todos. Grande lata.” Até era capaz de me exaltar e gritar, em vez de ficar calado agarrado à barriga, incapaz de articular uma réplica.

Ou será que me diriam “Era o que ele queria, tens de respeitar”? O braço queria ser arrancado, é? E mesmo que quisesse, não me faz falta na mesma? Ah, como o braço se foi por vontade própria, até fico feliz por ele! Que parvoíce. E se sou egoísta? Pois claro que sou! Porque o braço me faz falta. Porque tu me fazes falta.

Ou diriam “Vais ver que isso passa.”? Como passa? O braço volta a crescer? Mas serei eu uma estrela-do-mar? Perco um braço e cresce outro? Ou acham que posso ir comprar um substituto? Ou há por aí dadores de braços?

E agora podem dizer “Estás a ver como a vida continua e como podes voltar a ser feliz?”. Ora, pois claro, mas olhem para isto. Falta-me um braço!

E a minha filha nunca encontraria uma foto do meu braço. Como quando encontrou uma foto tua, todo carrancudo, como ficavas sempre. A minha filha, tua sobrinha, e perguntou:

— Quem é este, pai?

— É o meu irmão.

— Porque é que nunca conheci o teu irmão?

— Porque já morreu, filha.

— Ah.

E parou, sabes, como fazem as crianças, quando engolem uma informação nova e tentam arranjar espaço para ela. Continuou:

— Como o pai do Simba?

— Isso mesmo.

— Então podemos falar com ele nas estrelas?

— Acho que sim, filha.

E abracei-a.

Com os dois braços.

Nuno Gonçalves
Nuno Gonçalves
Texto Vencedor
CLUBE DOS WRITERS Premium

Estes são os textos vencedores do desafio de escrita criativa mensal do CLUBE DOS WRITERS Premium

Histórias à Solta

Uma vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase.
Faça agora o download gratuito e tenha ao seu dispor um documento de consulta rápida e simples ao qual poderá recorrer sempre que tiver dúvidas relativamente à colocação de uma vírgula.

Histórias à Solta
O CLUBE DE LEITURA PARA TODOS OS BOOKLOVERS

Vírgulas. Como Utilizar?

Preencha o formulário e receba grátis este printable.