historias à solta - textos do mês

Mariana

Mariana,

maga materna, molda mimosos meninos,

em voos vazios, corre em vestes de vento,

não há tempo para o leite.

O relógio, canta a urgência da vida,

confiados à vizinha, que à escola os há de levar,

nas asas do amanhecer,

sonhos desabrocham, prontos a voar.

Mariana,

febril, ruma ao barco apressada,

o relógio, feito mar revolto, a espera,

não há tempo para olhar o espelho.

Escritórios são mares a limpar, às oito, as portas abrem,

e o sol adormecido,

entre nuvens de papel, danças raras a segredar.

Mariana,

navegadora do destino incerto,

na porta da escola, os sorrisos são gaivotas,

os abraços, portos seguros de cansaço,

não há tempo para amar.

Em silêncio, tece amores nas dobras do tempo,

resiliente, ecoa a melodia do vento, em versos a entoar.

Mariana,

retorna ao lar, num oceano de cansaço,

desperta o marido ainda adormecido,

um sapato voa como andorinha na alvorada,

não há tempo para fugir.

Um rio de sangue desliza pelas rugas da tristeza:

— Não chorem, meninos, é só o pai a brincar!

Mariana, mulher, poesia serena da vida.

Maria Bruno Esteves

Maria Bruno Esteves

Texto Vencedor

Conversa entre amigos

A Maria e o novo amigo alienígena Alberto estão a arranjar a nave ultrassónica que há uma semana aterrou de emergência na ventosa Aldeia do Vento, no planeta Terra.

— Terminei agora!

— A Maria tem jeito para a mecânica cósmica.

— Não sobraram peças …

— Tenho de fazer algo e rapidinho. A 111-RTX está capaz de descolar.

— Falta apenas compor o exterior da nave… Onde estarão as portas?

— Boa! Sem portas não posso partir! Sem portas não há adeus!

— Só vejo pilhas de tralha ao meu redor.

— Ficarei nesta aldeia 12 meses galácticos.

— Como se eu tivesse capacidades divinatórias…

— Por mil Girabolexes, Maria, estás a ficar roxa!

— Roxo ficas tu quando eu te apanhar!

— Que linda brincadeira, Maria: um alienígena a fugir de uma criança terráquea!

— Eu dou-te a brincadeira! Fica sabendo que o teu verde está a empalidecer e as tuas antenas a cair.

— Está a esgotar-se o meu tempo na Terra…mas eu não quero ir embora!

— Mas tu és um adulto, não fazes birras. E podes visitar a Aldeia do Vento sempre que quiseres. Com a força das tuas antenas, nunca voarás.

— Poderia viver aqui, numa das casas desabitadas…não sou de luxos.

— Alberto, nem luxos, nem lixos. A tua família espera-te!

— Bzz. Zyrx. Ai!

— Então, Alberto?

— Este é o som da inevitabilidade… É o som da minha morte! — responde Alberto, recordando Leo no filme Matrix, rodado em Girabolas, o seu planeta.

— Calma, Alberto! És muito pessimista. Vamos acabar o arranjo da tua nave. Onde estão as portas que escondeste? — quis saber a Maria, angustiada por ver a estranha fraqueza do amigo. Alberto indicou-lhe o lugar, envergonhado como uma criança apanhada em flagrante delito.

— Ajuda aqui. Encontrei-as, mas são demasiado pesadas para mim.

Alberto fez um derradeiro esforço, dirigindo um raio de luz das portas para a nave.

— Boa, querido amigo! Agora temos que te pôr lá dentro e programar a viagem para que não te percas no espaço cósmico. Vamos! Só mais uma magia!

Alberto sabia que não havia solução, tinha ido longe demais e o espaço não se encontrava a seu favor. Estava no meio do caminho, num intermédio frágil entre a vida e um longo sono.

— Mas, o que é aquilo? — perguntou a Maria ao ver uma bola de luz roxa e branca aproximar-se da Terra — Parece…outra nave espacial?! Alberto, acho que vem ajudar-te… — e uma manga de luz apanhou o alienígena, teletransportando-o para o seu interior.

— Boa viagem, querido amigo, boa viagem! — disse a Maria, acenando sem saber muito bem se havia de se sentir feliz ou triste e era uma lágrima frágil a que o vento roubava do seu rosto de criança.

Andreia Galhardo

Andreia Galhardo

Texto Vencedor

Árvore de Natal

No centro da praça mais antiga da vila, uma árvore tomara a forma de um gigantesco guardião do Natal. Enquanto muitos admiravam as suas luzes cintilantes, Paulo notou uma sombra projetada por ela, apontando para norte. Parecia mágica, movia-se! Seria ele apenas a vê-la? Seguiu-a.

Passou por casas iluminadas e prendas flutuando com as pessoas que enchiam as ruas. Cores mornas e aveludadas enchiam-lhe os sentidos. Seria isso o espírito do Natal? A sombra virou uma esquina. Seguiu-a.

Viu sem-abrigo tiritando de frio, um cão faminto. Ouviu o choro de uma criança. Sentiu uma tristeza cortante. Então, algo peculiar aconteceu. A sombra desapareceu e chegou um grupo de pessoas. Entoavam cânticos de Natal. Uns aproximaram-se dos sem-abrigo; outros bateram às portas, oferecendo o calor das suas palavras e a bênção da sua ajuda.

Paulo sentiu que a magia 𝗱𝗮 á𝗿𝘃𝗼𝗿𝗲 𝗳𝗼𝗿𝗮 𝗮𝗳𝗶𝗻𝗮𝗹 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗺𝗯𝗿𝗮 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 o genuíno espírito do Natal.

Teresa Dangerfield

Teresa Dangerfield

Texto Vencedor

O menino não era estranho

O menino não era estranho, e, por um desígnio divino, fora-me destinado trazê-lo ao mundo. Eu, Maria, mãe de primeira viagem, era a escolhida. Agradeci a dádiva por aquele ser que transformaria a minha vida e a de todo o mundo, segundo a profecia. Para uns, era o Messias; para outros, simplesmente mais um. José acolheu-o de braços abertos e aceitou-o como filho, sabendo, no entanto, estar ao serviço de um Deus que, até então, nunca se manifestara.

Questionei-me sobre a justeza deste Deus que se serviria de nós, mas fiquei rendida àquela criatura tão promissora. Carregava consigo o peso de toda a humanidade. Vê-lo ali despido de toda e qualquer mundanidade fez-me pensar que, todos os dias, em algum lugar do mundo, o presépio está vivo, pois cada nascimento é Natal a acontecer e traz consigo a esperança num mundo melhor.

O meu menino não era estranho, mas era diferente!

Maria Gaio

Maria Gaio

Texto Vencedor

O pai Ulisses

Há muito tempo, numa pacata cidade à beira-mar, vivia um homem chamado Ulisses. Muito se fala de Ulisses e de suas façanhas. Era um pai amoroso e um marinheiro muito hábil. Navegou por mares perigosos e enfrentou monstros terríveis. Mas, a dada altura, transformou-se e trocou as suas aventuras por uma vida mais tranquila na pacatez de sua casa, dedicando-se à educação do seu filho Teo.

Teo era curioso e ansioso e adorava ouvir as histórias de seu pai. A cada noite, Ulisses sentava-se ao lado da lareira e começava a contar as suas aventuras emocionantes. O seu filho encantava-se com os relatos das sereias sedutoras, do Ciclope feroz e das tempestades aterrorizantes.

Porém, o que mais admirava no seu pai não eram as façanhas heroicas, mas sim a sua coragem e sabedoria. O pai deu-lhe a conhecer os mistérios da vida e como poderia ser desafiante.

Juntos, enfrentaram tempestades emocionais, desvendaram enigmas familiares e navegaram por mares de responsabilidade. Ulisses ensinou a Teo a importância da paciência, da perseverança e do amor.

E foi assim que a odisseia de Ulisses continuou, não à procura de tesouros perdidos, mas sim de uma vida significativa, repleta de grandes lições.
Teo cresceu, tornando-se um pai tão sábio quanto Ulisses. E a sua história perpetuou nas noites à beira da lareira, lembrando que a maior aventura de todas é a caminhada em família.

Beth Alves

Beth Alves

Texto Vencedor

Um homem novo

Até estás mais bonito, Rogério. Vês as maravilhas que fazem uns dias sem pegar num cigarro? Parece que voltaste a ter aquela pele de bebé. E já não tresandas a cerveja. Quando foi a última vez que abraçaste um gargalo? Eu dizia-te que era o álcool. Os gritos, os murros. Era tudo o álcool. Vês como tudo isso parou? Porque aquele não eras tu. Agora, sim. Agora lembras-me o moço calado e tímido por quem me apaixonei há tantos anos. Era capaz de me voltar a apaixonar por ti, Rogério. Era, pois. É pena ser hora de fechar o caixão.

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves

Texto Vencedor
trem de cozinha

O Trem de Cozinha

     Era uma vez um tacho comilão, que só queria saber da sua barriga. Sentia-se importante, pois comida não lhe faltava, e gabava-se disso. Os outros, amontoados a um canto do armário, sentiam-se pequeninos, tristes e abandonados.

     Um belo dia, estava ele limpo e asseado, saltaram-lhe para dentro na tentativa de o esconder, para que, assim, fossem os primeiros a ser usados. Ele barafustou e, salientando o seu ventre com as suas asas, que, como devem imaginar, não abarcavam toda a sua amplitude, disse-lhes:

     ─ Vocês nunca hão de ter uma barriga igual à minha, além de que sou o preferido da casa ─ assim se vangloriava. ─ Eu sou tão bom, que até à mesa me levam; dispenso as terrinas. Comigo, é só comida de conforto.

     O tacho mais pequeno, num esgar metálico, retorquiu:

     ─ Achas-te o maior? Olha para ti… Sujo, cheio de nódoas entranhadas de gordura da comida. Que mau aspeto!

     ─ Eh eh! eh! ─ ria-se a infusa ali mesmo ao lado. ─ Pois tu nunca terás a minha elegância. Sou delicada, aqueço e fervo líquidos, e também vou à mesa.

    ─ Olha para mim ─ disse a sertã. ─ Eu sou como um livro aberto. O que puserem em mim, fica tudo à vista, e sou bem mais rápida que tu. ─ Todos tinham algo a apontar, e, no calor da discussão, saltava-lhes a tampa, ou azedava a comida.

    Num almoço de família em que todos os tachos estavam presentes, bem como os companheiros de refeição, e já destampados, a fanfarronice do tacho acabaria ali, em frente a todos. O saleiro mandou-lhe sal para dentro. A almotolia jogou-lhe vinagre e azeite. O pimenteiro, pimenta. E o saca-rolhas, com a sua rosca afiada, fez-lhe um furo bem no meio da barriguinha que ele tanto prezava, fazendo-o verter o molho do belo guisado.

    ─ Socorro! — gritava. Mas todos fingiram não ouvir. Era o seu fim ─ pensou.

    A concha mandou-o calar. Os pratos partiram-se numa cacofonia de riso. Os copos vibraram em gargalhadas sonoras. Os guardanapos riram-se a bandeiras despregadas. E, dele, escorreram lágrimas aos molhos, que inundaram toda a mesa A garrafa de vinho juntou-se-lhes, derramando alegria.

Maria Gaio

Maria Gaio

Texto Vencedor
Queima das Fitas

Queima das Fitas

As badaladas da meia-noite calaram-se para os acordes das guitarras de Coimbra. Com a Serenata, começava a minha última Queima das Fitas. Sentada nas pedras morenas da velha Sé, com outros quintanistas, ouvia gemerem cordas nos dedos dos amigos, trinarem vozes dos que me tinham acompanhado nos últimos quatro fabulosos anos. Entre os fados, o rumor de milhares de gargantas “aplaudindo”. Será que trouxe as chaves de casa? A capa negra de saudade bem traçada — nem uma ponta branca podia entrever-se —, com quatro dobras no colarinho, uma por cada ano de curso. À minha frente, serpenteava um mar negro pelas ruas da Sé Velha, tapando cada pedra do largo. Até os poucos futricas que por ali furavam vestiam de escuro. O negro das capas e o branco da lua. Não sou de chorar. Não torço nem quebro. Mas, naquela noite, nem as estrelas seguraram as lágrimas de todos os que deixavam a Academia. Um regato de pérolas transparentes com que tecemos, para sempre, um fio de laços inquebráveis. Pelo rosto do cantor, corria outro fio, o do dejeto da pomba, acordada pelo barulho. Uma hora depois, o último acorde da última guitarrada. E, então, em uníssono, milhares de gargantas responderam à voz de comando do FRA da praxe. Fitas soltas das pastas, a adejar, bem no alto, numa tela das cores da cidade: vermelho, branco, azul, roxo… as cores de todos os cursos. Azuis escuras, as minhas. A mão esquerda a acariciar todos os muitos rasgões da minha capa, feitos com os dentes, como exige a praxe, e a deter-se naquele em forma de estrela.  

A festa prosseguiria durante uma semana com as noites no Parque, o Baile de Gala, a Garraiada, o Chá Dançante e o Sarau, atingindo o clímax no Cortejo. No largo da Sé Nova, depois da Queima do Grelo, num penico — o nabo, previamente roubado no mercado, com a conivência das vendedeiras —, milhares de estudantes universitários e uma centena de carros temáticos, enfeitados com flores de papel coloridas nos tons dos vários cursos, desceriam os Arcos do Jardim, a Praça da República e a Avenida. Virariam à esquerda, para passarem em frente à Câmara e à Igreja de Santa Cruz, e seguiriam até à Portagem. Caloiros e doutores à frente do respetivo carro, quartanistas em cima dele e nós, os quintanistas, de cartola e bengala, atrás. Apinhada nos passeios, a multidão saudaria os estudantes; os familiares oferecer-nos-iam ramos de flores nos tons dos nossos cursos e levariam uma ou outra borrifadela de champanhe. Os jardins, os cafés, as repúblicas, onde, tal como nós, se tinham reunido, em tertúlias, o Eça, o Antero, o Nobre, o Régio e tantos outros.

Mas ainda não. Deixe-me, leitor, ficar mais um pouco naquelas escadas, ficar no choro de uma balada, num tempo que acabou e que não volta, guardar em mim o bater da velha cabra, os segredos desta cidade. Desenhar o adeus. Na verdade, muito de nós ficou naquela noite, porque Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.

Eh, malta, por Coimbra não vai nada, nada, nada? Tudo! Mesmo nada, nada, nada? Tudo! Então, com toda a cagança, toda a pujança, do fundo do coração, aqui sai um Fra: fra, Fre: fre, Fri: fri – Fro: fro, Fru: fru! Fra, fre, fri, fro fru! Ali quali, quali, quali! Ali quali quali quali! Chiribiribi tata tata! Chiribiribi tata tata! Hurra, hurra, hurra!

Ana Paula Campos

Ana Paula Campos

Texto Vencedor
Corações Apagados

Corações Apagados

O correio apenas chegava ao quartel uma vez por semana. Para proteger o saco de lona grossa e verde, era exigido que fosse escoltado por viatura militar com seis mancebos armados, afastando assim o perigo de assalto inimigo, em busca de segredos e estratégias bélicas.

Do cimo das escadas desgastadas pelas subidas e descidas de enlameadas botas, o cabo amanuense grita para a multidão, ansiosa por ouvir o seu nome:

—Soldado Santos!

O nomeado fura a turba impaciente. Agarra a pequena carta azul-bebé, dobrada em envelope. Acha estranho não ver corações vermelhos desenhados nas abas laterais e frontais. Um pressentimento ruim aperta-lhe o peito, enquanto se senta debaixo do alpendre escuro e triste da caserna. Lê lentamente uma frase, seca e apunhalante:

—Manel, não aguento esperar mais dezoito meses. Conheci outro homem.

O Santos corre dali à cantina, para beber a primeira das milhares de cervejas que se seguiriam.

José Mendes

José Mendes

Texto Vencedor

Sono fatal

O telemóvel tocava. Dei um bafo no cigarro, apreensivo, prevendo o assunto: um novo homicídio. Três assassinatos nas últimas semanas. Um talhante esfaqueado, uma professora asfixiada, um médico afogado. Vítimas sem qualquer relação entre si, tal como as formas como apareceram mortas.

A população andava assustada. Culpa daquela pirralha, jornalista estagiária, que aparecia num ápice, vasculhava tudo e, em menos de nada, publicava detalhes da investigação.

Ainda assim, não se liam rumores sobre o único fator comum: tinham sido detetadas benzodiazepinas no sangue de todas as vítimas.

Assumindo que tivessem sido sedadas antes de mortas, tudo indicava que existia apenas um assassino a querer fazer-nos acreditar que cada crime tinha um culpado diferente. Mas nem sequer o meu colega Pires, agente tão meticuloso, parecia dar ênfase a esta pista. Agia e falava como se desconhecesse esta informação. Atendi a chamada. Não me enganei.

Quando cheguei ao local, o Pires já andava atarefado com fitas métricas, saquinhos e fotografias. Parecia que sabia sempre de tudo antes de mim.

—  Uma pancada certeira na testa. Tal como os outros, não apresenta sinais de ter oferecido resistência — relatou-me.

— Tal como os outros, não devia estar consciente… A minha insinuação apenas teve como resposta um silêncio desconfortável.

A gravilha revoltou-se com a travagem de uma mota, da qual desceu a sirigaita da jornalista. Ao mesmo tempo que puxava um gravador do interior da mochila, deixou cair várias caixas brancas que se espalharam pelo chão e que ela, de forma desajeitada, se apressou em recolher. Bromazepam, lia-se no rótulo de todas elas.

—  Dorme mal, a menina… —  ironizei.

— Disfarça. Deixemo-la cirandar. Eu continuo a colher provas e tu tratas do mandado de busca à casa dela —  retorquiu o Pires, antes de imitar a minha voz e o meu jeito sarcástico

—  Hoje, a reportagem vai ficar a meio.

Laura Santos

Texto Vencedor
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