O lugar das palavras tristes

Caminho leve entre campas quase sem deixar pegadas. Cemitérios não são lugares onde queiramos deixar marcas.

Há textos difíceis de escrever, pouco importa a sua dimensão. Redigir uma homenagem fúnebre a um pai é um deles.

Quem está no ofício da escrita deseja esboçar palavras para a eternidade, mas as palavras gravadas na pedra, esquecidas à chuva e ao sol, imortalizam lembranças que ficam tanto ou mais do que a perenidade de um livro. Há cemitérios de livros esquecidos. Os nossos cemitérios transbordam de recordações.

Diz-se que os escritores (esses artífices da criatividade desmedida em palavras) escrevem de tudo, mesmo sobre o que não viveram, observaram, sentiram, cheiraram, saborearam, tocaram ou escutaram, com tal minúcia e saber que a verossimilhança transparece em cada linha. Refugiam-se no sótão das rememorações, nem sempre conscientes, dos livros que leram, das histórias contadas de vidas incógnitas, e as palavras brotam como água de nascente pura que reconhece o caminho. Não é tão poético, mas acreditemos.

Os trilhos da morte… poucos (ou ninguém) desejam gizar por aí. A morte rodeia-nos, cumprimenta-nos quando despertamos, reflete-se no espelho e nós, indiferentes, convencidos de uma falsa imortalidade ou, quiçá, meramente temerosos, viramos-lhe a face. Enquanto podemos. Não é preciso ver chegada a nossa vez. Quando quem amamos é convocado é já bastante para engolirmos a certeza dessa má sorte que se apresenta a todos os viventes.

Preciso de escrever essa última homenagem. Como diz Borges, «toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilhem». Por que não dirigir-me ao local certo para tal inspiração? O lugar das árvores tristes (obrigada, Lénia Rufino). Procuro palavras que tudo digam, o óbvio, sem rodeios, erudições ou subtexto. Há quem tenha cumprido missões piores em nome do privilégio de páginas impressas.

De caderno negro na mão, que Hemingway perpetuou, caneta destapada (há que não desperdiçar tempo com minudências), passo os portões de ferro entre prantos e lamentos que reconheço. Mas hoje a morte abriu os braços a um desconhecido.

Caminho leve entre campas quase sem deixar pegadas. Cemitérios não são lugares onde queiramos deixar marcas. Saúdo em silêncio os que choram — a sua dor, também foi minha —, aceno em respeito os que cuidam, de enxada erguida, a rasgar o ar, ferindo a terra, no cuidado dos que já nada reclamam. Há lama fresca remexida, ervas rebeldes que não escolhem onde brotar, flores secas, velas sem chama, lápides de formas tantas como quem lá em baixo repousa. «Eterna saudade», «mais uma estrela no céu», «mães não morrem», «corpos unidos que agora descansam em paz finalmente reunidos», «o tempo passa, mas a saudade ficará para sempre nos nossos corações», «nenhuma palavra poderá definir a dor e a saudade que sentimos», «ansiamos o dia do nosso reencontro», «fica em paz e olha por nós», e um doloroso, injusto, pecaminoso «Deus apanha as flores enquanto são pequeninas», tudo leio.

Saio, «inspirada», do lugar das palavras tristes, mas sem fôlego para escrever.

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Crónica publicada no MEGAFONE | PÚBLICO a 29/01/2022

 

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Analita Alves dos Santos

Analita Alves dos Santos

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