A primeira vez que dou por ela é de rompante. Entra como vento, sem aviso, por janelas que eu julgava fechadas e portas que, afinal, não trancara. Instala-se sem pedir licença. Encontra-me vulnerável não por descuido, mas por fadiga de me manter inteira.
Antes, a Besta era rumor nos interstícios da alma — num tempo em que ainda a mantinha quase intacta. Percebia-a a rondar-me, sombra quase impercetível. Rumor. Nunca se tinha manifestado abertamente, nem eu a deixara acercar-se demasiado. Pressentia-a, sim. Sabia que, um dia, chegaria como luva branca para me mostrar o meu lugar no mundo. No meu e no dos outros. Fui sempre pouco humilde com ela. Tratei-a com desdém, reconheço. Mas a soberba foi apenas um escudo frágil contra o medo de reconhecer o vazio.
Sou filha de um quase verão. A adivinhar a alegria ali ao meu alcance. Um prenúncio da espera que seria a minha vida. Tudo sempre quase ali, quase à distância da minha mão, sempre prestes a acontecer, sempre ligeiramente fora do alcance. Jamais me faltou o esforço. No entanto, não desisti por bravura, apenas por incapacidade de aceitar uma vida inútil. Nunca me reconheci na desgraça, mas ela reconheceu-se sempre em mim. Ousada, fui-me enganando e aos outros. Primeiro, aprendi a ser companhia; só depois a ser sozinha. A ordem foi cronologia, não escolha.
E, hoje, noite de Natal, a casa que eu julgava minha está pronta para abrigar a Besta. Deixa de ser sombra para se tornar mobília.
O dia escoa-se na azáfama da época. Luzes, enfeites, alegria, visitas. Tudo já fingido. Uma réstia, ainda, de engano, apego aos últimos resquícios de vida mundana. Ao fim da tarde, a casa encolhe. Amigos e família recolhem aos seus lares, onde a festa é quente e recíproca, depois dos votos de Feliz Natal. Abraços que se prolongam mais do que deviam, não por afeto, mas por embaraço. Deixam-me o amargo presente da partida, envolto em sorrisos. Vão sem olhar o desamparo nos olhos. Judas não por intenção, mas por incapacidade de ficar. Abandonam-me, constrangidos pela sua alegria, pela vida que palpita para lá de mim. Fugir é uma forma de sobrevivência. Não perguntam. Por medo, por pressa. A ausência fica por explicar.
A presença que fica esta noite será paga. Chega, não para celebrar, mas para cumprir horas de trabalho. Dorme no sofá, para lá do mundo branco, vermelho e quente das imagens da televisão. Mesas fartas, gargalhadas. Tudo tão distante. Da cozinha, chega-me o odor doce do bolo que não vou comer. Atriz num palco que não escolhi, alheio-me e voo para outras noites, lá atrás, no tempo em que eu ainda era companhia. A euforia do presépio, da árvore, da comida, das compras. A casa sempre cheia de um amor que eu ainda não sabia condicional.
É dia de Natal. Sozinha. Os meus olhos estendem-se pelo cinzento que entrevejo através da janela fechada, pelo silêncio modorrento e tristonho. Pura ilusão. O vazio da rua apenas esconde os risos, os abraços, os almoços em família dentro de cada casa. A minha não esconde nada. Um nada estendido, sem cerimónia.
Não perdi o meu ninho num grande desastre, mas numa sucessão de pequenas tragédias. A Besta começou a rondar, com mais frequência, cada vez mais perto, inevitável. Foi conquistando centímetros no meu território interior, até que passámos a partilhar o endereço. Sem tréguas, vem-se impondo, insidiosa.
Trôpega, sento-me no sofá. O tecido áspero e frio cola-se-me à pele. O corpo pesa-me. Encosto a bengala de madeira polida junto de mim. Esfrego a pele translúcida das minhas mãos nodosas e manchadas. Pela primeira vez, não afasto a ideia de desaparecer. Não a desejo. Observo-a. Um animal selvagem do outro lado de um vidro.
Na tarde pardacenta, deixo-me ir neste abismo. Há um cheiro a café esquecido na chávena da véspera. Café velho. Abro-me à raiva e às lágrimas. Vislumbro o Inferno a espreitar atrás da porta, destino final de uma caminhada solitária. Fujo para o bosque luminoso da televisão e cheiro o verde, sob cuja superfície, larvas deslizam entre calcificações de vidas felizes. Mantenho-me quieta como se a morte já me tivesse alcançado, fecho as pálpebras, asas de borboleta apanhada em pleno voo livre. Anoitece no bosque e dentro de mim. Respiro o fumo espesso de um nevoeiro que sobe da terra e me cola as pestanas. Diluo-me como gelo em água morna, sem desaparecer de facto. O fim não começou com um estrondo, mas com a hipótese silenciosa de eu não fazer falta ao mundo.
Não me salvo. Mas, afinal, mexo-me. A vida a fazer-se presente, sem pedir licença.
Levanto-me. Não com decisão, mas com curiosidade. Abro a janela. Dezembro entra agressivo, corta-me a pele do rosto, sem conforto. A música acontece. Um som que ecoa na sala vazia. Dou um passo, depois outro. O corpo lembra-se. Danço. O chão frio sob os pés a acordar-me o sangue. Tenho vinte anos outra vez. A Besta observa, enrolada num canto da sala. Não a domino. Mas engano-a. Um poder precário. Meu, no entanto.
Varro o tédio que previa entranhar-se nos meus recantos sombrios e encho o silêncio com a minha voz. Quantas vidas cabem num corpo que insiste em não cair?
Na estante, as dezenas de mundos ainda por ler; na mesa do canto, as histórias por pintar. Nas casas cheias da família e dos amigos, a minha ausência.
Regressa a soberba. Estou pronta. Vou deixando que a Besta se chegue, que me habite, sem que me vergue. Pega-se-me à alma como uma camisola velha. Vencer não é expulsar monstros. É obrigá-los a dançar connosco na sala onde antes só cabia o fim.
Talvez as coisas sejam os nomes que lhes damos. Mas dar nome não é vencer. Apenas impede que o indizível tenha a última palavra. A minha Solidão é do tamanho da minha vida.
Paula Campos
- dezembro 2025




