«Escrever é a arte de cortar palavras.»
Carlos Drummond de Andrade
Publicar não é um salto no escuro nem um golpe de sorte. É um percurso com etapas concretas, decisões informadas e uma preparação que começa muito antes do envio de um e-mail. A oficina Da Gaveta à Livraria nasce precisamente dessa consciência: a de que escrever é essencial, mas saber como apresentar um livro ao mundo editorial é determinante.
Ao longo dos anos, tenho acompanhado muitos autores que escrevem com seriedade, empenho e verdadeiro amor à palavra, mas perdem-se quando chega o momento de dar o passo seguinte. O manuscrito está concluído, ou assim parece, porém surgem dúvidas: estará pronto? Para quem o enviar? Como abordar uma editora? O que dizer, omitir e preparar?
A verdade é simples e, por vezes, desconcertante: muitos livros não são recusados por falta de qualidade literária, mas por falta de preparação editorial. Um texto pode ter uma boa ideia, uma voz interessante e até momentos felizes, mas chegar a uma editora sem ter passado pelas etapas mínimas de amadurecimento é comprometer, à partida, a sua leitura atenta.
O processo de publicação é um caminho. Começa no manuscrito, passa pela submissão e só depois chega à publicação. Quando se tenta encurtar este percurso, o mais provável é perder-se nele. Compreender cada etapa permite ao autor agir com mais clareza, menos ansiedade e maior responsabilidade sobre o próprio trabalho.
Uma das confusões mais frequentes prende-se com a ideia de texto pronto. Um texto pronto não é um texto perfeito, nem um texto imune a edições e revisões futuras. Trata-se de um texto que foi editado, lido criticamente, editado e revisto; um texto pensado como um todo, que apresenta coerência narrativa e estilística e respeita o leitor. Neste caso, refere-se ao primeiro leitor profissional, que é a editora.
Aqui importa esclarecer uma distinção essencial: edição não é revisão. A edição trabalha o conteúdo, a estrutura, o ritmo, a construção das personagens, a coerência do enredo, a voz narrativa. É uma intervenção profunda, muitas vezes exigente, que obriga o autor a questionar escolhas, a cortar excessos e a reforçar intenções. A revisão, por sua vez, incide sobre a língua: ortografia, pontuação, concordâncias e uniformização gráfica. Ambas são fundamentais, mas atuam em planos diferentes e complementares do texto.
Quando essas etapas são ignoradas, os erros tornam-se recorrentes: manuscritos enviados sem revisão, sinopses inexistentes ou confusas, ficheiros mal identificados, e-mails de submissão escritos à pressa ou de forma genérica. Pequenos descuidos que passam uma ideia equivocada sobre o cuidado do autor com o seu próprio livro.
A escolha da editora exige trabalho. Não basta procurar editoras que aceitam originais. É preciso ler catálogos, perceber linhas editoriais, conhecer os autores publicados e avaliar afinidades. Cada livro pede um lugar específico, e nem todas as casas editoriais são adequadas para todos os projetos.
A carta de apresentação, a sinopse e o e-mail de submissão fazem parte integrante desse gesto. Não são meros formalismos: são o primeiro contacto entre o livro e quem poderá publicá-lo. Pedem clareza, concisão, rigor e uma escrita cuidada. O foco deve estar sempre na obra, não na autopromoção do autor.
Depois do envio, há o tempo da espera. Por vezes longa, por vezes silenciosa. Saber lidar com esse intervalo, com respostas negativas ou com a ausência delas faz parte do percurso editorial. Publicar é também um exercício de persistência e de resistência. Cada recusa pode ser um ponto de aprendizagem, desde que haja disponibilidade para escutar, rever e melhorar.
Existem vários caminhos possíveis para a publicação: edição tradicional, coedição, edição de autor, impressão sob demanda. Nenhum é, por si só, superior aos outros. Cada modelo implica custos, níveis de controlo, expectativas e responsabilidades diferentes. O mais importante é que a escolha seja consciente e alinhada com o projeto e com o momento do autor.
Levar um livro da gaveta à livraria não acontece por acaso. Exige trabalho, tempo e preparação. Requer que o autor assuma o seu lugar no processo editorial, com lucidez e respeito pela própria escrita.
Para quem sente que chegou o momento de compreender melhor esse percurso, de esclarecer dúvidas e de preparar o livro com consciência, o curso intensivo online Da Gaveta à Livraria oferece um espaço de reflexão prática sobre o que significa, hoje, fazer um livro chegar a uma editora.
Lugares limitados. Inscrições aqui.




