A sirene é um grito que rasga a madrugada.
— Tensão muito baixa!
A voz do enfermeiro chega de longe, distorcida, abafada. Luísa tenta abrir os olhos, mas as pálpebras pesam como pedregulhos. O teto da ambulância balança: uma mistura de branco, luz, branco, sombra. E em todo o lado, vermelho. Nas mãos do médico que mergulha no seu peito como quem procura algo. Na blusa outrora branca, agora manchada com uma geografia irregular. Na maca onde se esvai, gota a gota. Vermelho como as rosas. Vermelho como aviso. Vermelho.
— Luísa? Aguenta! Estamos a chegar!
Mas Luísa já partiu. Está algures entre o presente e aquele dia, há sete anos, quando Diogo lhe disse que a amava e ela acreditou.
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Seis facadas no tórax.
O Dr. Garcia tem as mãos enterradas dentro do peito dela, tentando estancar o que parece impossível. Uma década no INEM, e ainda há casos que o desarmam. Casos onde chegam sempre um pouco tarde demais.
— Quanto tempo até São José?
— Cinco minutos!
Cinco minutos podem ser eternidade.
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Diogo tinha olhos castanhos que sorriam só para ela.
És linda, Luísa.
Ela tinha trinta e um anos, um casamento falhado e estava cansada de ser transparente. Diogo via-a. Ou pareceu vê-la. E essa luz inicial confundiu o amor com posse.
Onde estiveste ontem à noite?
Com a Sofia.
Aquela que te quer roubar de mim.?
Ela riu. Confundiu ciúmes por zelo. Demorou a perceber que eram correntes.
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—Saturação 82 %!
O enfermeiro comprime a ferida maior, mas o corpo de Luísa é uma peneira. O sangue escapa por todos os lados, insistente, teimoso. A ambulância oscila numa curva. O Dr. Garcia sente, por entre as costelas partidas, o coração dela a tentar, desesperadamente, continuar a viver.
Luta.
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A primeira chapada chegou pouco tempo depois do casamento.
O som, esse, ela lembra-se. Uma estalada seca, o silêncio atónito que se seguiu. Ficaram ambos imóveis, como se a violência tivesse vindo de outra pessoa.
Meu Deus, Luísa, desculpa. Não sei o que me deu.
Ele chorou. E ela, porque o amava, porque queria acreditar, porque era mais fácil do que enfrentá-lo, perdoou.
No dia seguinte, chegaram rosas vermelhas. Tantas. Demasiadas.
Vermelho como desculpa, como promessa, como alerta. Ela colocou-as no jarro mais bonito, como se isso tornasse o gesto menos perigoso.
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— Estamos a chegar!
A ambulância atravessa o portão das urgências como uma bala. O Dr. Garcia olha para o rosto de Luísa, pálido, sem brilho, os lábios arroxeados, os olhos fechados com a fragilidade de quem já desistiu.
Tem aliança colocada. Claro que tem.
Interroga-se sempre se nestes casos se os maridos choram quando as enterram. Ou se apenas sentem alívio.
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Tentou sair três vezes. Três fugas falhadas, três regressos à prisão.
Na primeira, foi para a casa da mãe com uma mala cheia. Ele apareceu de madrugada, bateu à porta com força, até a mãe ter medo dos sussurros dos vizinhos, do escândalo.
Voltou.
Na segunda, sentou-se num escritório de advogados e contou, com vergonha, sobre as bofetadas, os empurrões, os gritos. Tens de fazer queixa. Mas Luísa lembrou-se: «Se me deixares, não respondo por mim.»
Voltou.
Na terceira, numa manhã, encheu discretamente uma mochila. Chegou à porta, a mão na maçaneta, a liberdade a três passos. Ele voltou. Esquecera-se de algo. Viu a mochila.
Partiu-lhe duas costelas.
Depois fizeram «amor», ele chorou sobre o corpo dela, como um penitente. Ela ficou deitada com as costelas a clamarem e pensou, pela primeira vez, que talvez morrer fosse o mais fácil.
E o pensamento, embora negro, pareceu-lhe inesperadamente sereno.
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As portas da ambulância abrem-se com violência. Mãos rápidas, comandos curtos. Luísa é transferida para dentro da urgência como se carregassem vidro prestes a estilhaçar-se.
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No bloco operatório, trabalham de modo organizado. A Dra. Vasconcelos drena, pressiona, costura e ordena. Mas o corpo de Luísa responde cada vez menos.
— Caiu tensão!
— Mais sangue!
— Fibrilhação ventricular!
— Desfibrilhar! Afastem-se!
O corpo de Luísa sacode-se com o choque.
Uma vez. Duas. Três.
Linha reta.
— Hora do óbito: quatro e trinta e sete.
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Luísa, finalmente, pela primeira vez em anos, deixa cair o peso. Solta-se. Vai.
Já não há dor. Já não há medo. Já não há Diogo.
Resta silêncio e uma paz tão profunda que parece o fundo do oceano.
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A Dra. Vasconcelos tira as luvas ensanguentadas lentamente. Olha para o corpo na mesa e sente raiva. Depois olha para a aliança no espólio.
É sempre o marido.
Lá fora, na sala de espera, não há ninguém. Luísa morreu sozinha, rodeada de estranhos que tentaram salvar-lhe a vida e falharam.
JORNAL DA NOITE
A pivô lê com voz grave:
«Esta noite registou-se a quadragésima vítima de violência doméstica em Portugal. Mulher, 38 anos.» Pausa. «O autor, marido da vítima, foi detido.»
Corte para o pivô masculino, que sorri:
«E agora, o desporto.»
Uma vida acaba; mas a emissão prossegue.
UM ANO DEPOIS
Marta, 23 anos, está no consultório. Tem nódoas negras no braço que esconde. Diz que o namorado às vezes perde a cabeça, mas que a ama muito. A psicóloga tira uma fotocópia.
— Lê isto. Em que parte da história da Luísa estás tu?
Marta lê. Tremem-lhe as mãos. Reconhece cada gesto, cada frase. E as flores eram sempre rosas vermelhas.
— Eu não quero ser a próxima.
— Então não sejas. Ainda vais a tempo.
25 DE NOVEMBRO
Vigília na cidade. Quarenta velas acesas, cada uma com um nome.
Luísa Lacerda.
O vento apaga algumas, mas outras resistem, teimosas, pequenas chamas que se recusam a morrer.
Luzes frágeis na escuridão, mas luzes ainda.
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Luísa não se salvou. Mas a morte dela abriu olhos adormecidos, acordou quem ainda vivia escondida com medo. E há vidas que começam com o fim de outras. Mulheres que agora fogem, que florescem sobre terra regada com sangue que nunca devia ter sido derramado.
Às vezes, resistir não é sobreviver.
É morrer de forma tão brutal que acorda a consciência de quem vem depois.
Ana Leal
- novembro 2025




