Travessura

Abominava a idiota tradição importada dos americanos. Por ele, receberia qualquer criança
que lhe batesse à porta apontando-lhe os canos da caçadeira. À esposa, no entanto, brilhavam
os olhos sempre que ouvia a irritante frase.

«Doçura ou travessura.»

Os pequenos fantasmas, vampiros e lobisomens serviam-se das guloseimas que ela acumulara
em tal quantidade que daria para tornar diabéticos todos os habitantes da aldeia.

Quando, após mais um toque da campainha, ele a ouviu gritar, julgou ser apenas mais uma
tentativa de animar os monstros imberbes. Mas ela não parava. Gritava, berrava, uivava.
Histérica como uma hiena. Ele correu a acudi-la, contrariado.

À porta, de mão estendida, estava uma zombie. Cabelos desgrenhados, olhos vermelhos,
carnes podres. Ele ficou impressionado com a caracterização, até a reconhecer.

— Luísa. — Murmurou.

E a esposa gritava e chorava e repetia, Luísa, Luísa, Luísa, minha Luísa.

“Como te desenterraste? Como voltaste a pôr a cabeça no lugar? Como percorreste todos
estes quilómetros? Como estás aí, após tantos anos?” Perguntava o homem para si próprio,
mas apenas lhe saía um som.

— Luísa.

A criança arreganhou os lábios e falou:

— Olá… Pai.

Não tinha língua.

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Nuno Gonçalves

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