Casa de Partida

casa de partida

«Falta-te o fôlego quando te assomas. No reflexo gelado da vitrina dos iogurtes, vislumbras a imagem, desfocada, daquela que outrora amaste.

Caminhas descompassado enquanto a bela morena enfia a cabeça no balcão do talho adivinhando a tua respiração ofegante. Continuas assombrado. Quem disse que algum dia ousarias voltar ao passado?

Tu não és o tipo de homem que frequenta o supermercado a estas horas da manhã. O teu cérebro navega desgovernado, tenta entender o que faz ela a trezentos quilómetros da casa de partida. Ela topa-te. Continua, impávida, a encher o pequeno cesto de rede azul. Será que te reconheceu?

Apressas-te a partir. Falta-te a coragem, como há seis meses, de reconhecer o teu fracasso. Em desalinho, nem dás conta da pilha de latas que derrubas à passagem, vislumbrando a linha de caixas.

O alívio consome-te quando a porta se abre. Terá sido uma miragem? Talvez o medo te esteja a toldar os sentidos e Sónia povoe tudo o que por ti graceja.

O 𝐶ℎ𝑎𝑛𝑒𝑙 𝑅𝑜𝑢𝑔𝑒 nunca engana e o para-brisas do teu carro é a prova viva do que, em letras berrantes, te traz a intempérie: «Algures no passado podias ter minorado a perda, mas talvez a perda não tenha sido assim tão grande… a minha.»

Ana F. Pinheiro
Ana F. Pinheiro
Texto Vencedor
Partilhar
CLUBE DOS WRITERS

Estes são os textos vencedores do desafio de escrita criativa mensal do CLUBE DOS WRITERS

Mais artigos:

Vírgulas. Como Utilizar?

Preencha o formulário e receba grátis este esta ferramenta bastante útil.