Um (a)braço [Nuno Gonçalves]

abraço

Tudo passa.

A vida continua.

Não quer dizer que fiquemos como dantes. Diria que é como perder um braço. Como se nos cortassem um braço. Não, cortassem não. Cortar é muito limpo, muito cirúrgico. Como se nos arrancassem um braço. Porque é mesmo assim, não é? Arrancado à bruta, com tendões rasgados, nervos estirados, músculos estraçalhados.

Não achas uma boa metáfora? Bem, foi o melhor que arranjei e olha que penso nisto há muito tempo.

Percebo-te. Um braço, afinal… Para que serve um braço? Tenho outro. Um braço não goza com este meu jeito desengonçado e hesitante. Não poderia jogar futebol contra um braço, como fazíamos, chovesse ou fizesse sol, com a bola meio cheia e meio rota. Um braço não solta aquelas tuas gargalhadas, que te transbordavam pelo nariz. Um braço não é um irmão.

Por outro lado, repara, se me arrancassem um braço, também ficaria incrédulo a ver algo que era parte de mim desaparecer abruptamente. Também sentiria uma dor excruciante. Mais ligeira, com certeza. E também deixaria uma cicatriz, funda, disforme, que esconderia por baixo da roupa e tentaria não olhar para ela a toda a hora, evitando acordar dores antigas.

Sim, tens razão, continua a ser diferente.

Porque se o agente me ligasse e dissesse “Estou a falar com o Senhor Nuno? É para lhe dizer que lhe arrancamos um braço.”, dir-lhe-ia “Como assim?” e tentaria argumentar e convencê-lo que seria boa ideia voltar a colocá-lo no sítio, que provavelmente exageraram e era desnecessário terem-me sujeitado a isso. Conseguiria, apesar do absurdo da situação, falar com ele usando palavras, palavras mesmo, e não grunhos, gritos e soluços.

Porque se eu tivesse de ligar à mãe a dizer-lhe “Olha, mãe, arrancaram-me um braço.”, não me custaria nada. Nadinha. Ela não ia gostar, claro, porque me criou com dois braços perfeitamente funcionais e ninguém gosta de ver um filho perder um pedaço, mas lá se resignaria e talvez me dissesse para me agasalhar ou assim. Agora, dizer-lhe que tu…

Porra, que me arranquem o braço. Para que serve um braço? Faria tudo igual só com o outro, a sério. Escrever? Fácil. Cozinhar? De certeza que conseguia. Tocar guitarra? Bom… Talvez fosse difícil, mas deve haver vídeos a explicar. Operar? Eh… Deixa lá isso.

Ah, dizes que também levo a mesma vida sem ti? Não, pá. Levo UMA vida sem ti. Não é a mesma vida. Porque nesta vida, não estiveste no meu casamento nem conheceste os teus sobrinhos. É outra vida. Com muitas alegrias, claro. Mas outra vida. Sem ti.

Olha outra que me lembrei. Será que se me arrancassem o braço, também teria de ouvir “Isso acontece a todos”? Talvez. Mas aí eu responderia, irritado: “A todos? Acontece a todos? Então não vos vejo aí todos com dois braços?! Escusam de os esconder nos casacos, ou atrás das costas. Acontece a todos. Grande lata.” Até era capaz de me exaltar e gritar, em vez de ficar calado agarrado à barriga, incapaz de articular uma réplica.

Ou será que me diriam “Era o que ele queria, tens de respeitar”? O braço queria ser arrancado, é? E mesmo que quisesse, não me faz falta na mesma? Ah, como o braço se foi por vontade própria, até fico feliz por ele! Que parvoíce. E se sou egoísta? Pois claro que sou! Porque o braço me faz falta. Porque tu me fazes falta.

Ou diriam “Vais ver que isso passa.”? Como passa? O braço volta a crescer? Mas serei eu uma estrela-do-mar? Perco um braço e cresce outro? Ou acham que posso ir comprar um substituto? Ou há por aí dadores de braços?

E agora podem dizer “Estás a ver como a vida continua e como podes voltar a ser feliz?”. Ora, pois claro, mas olhem para isto. Falta-me um braço!

E a minha filha nunca encontraria uma foto do meu braço. Como quando encontrou uma foto tua, todo carrancudo, como ficavas sempre. A minha filha, tua sobrinha, e perguntou:

— Quem é este, pai?

— É o meu irmão.

— Porque é que nunca conheci o teu irmão?

— Porque já morreu, filha.

— Ah.

E parou, sabes, como fazem as crianças, quando engolem uma informação nova e tentam arranjar espaço para ela. Continuou:

— Como o pai do Simba?

— Isso mesmo.

— Então podemos falar com ele nas estrelas?

— Acho que sim, filha.

E abracei-a.

Com os dois braços.

Picture of Nuno Gonçalves
Nuno Gonçalves
Texto Vencedor
Partilhar
CLUBE DOS WRITERS

Estes são os textos vencedores do desafio de escrita criativa mensal do CLUBE DOS WRITERS

Mais artigos:

Vírgulas. Como Utilizar?

Preencha o formulário e receba grátis este esta ferramenta bastante útil.